O que podemos esperar dos próximos 30 anos da Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo e em outras partes do Brasil?
Por Vagner de Almeida & Diego Mesquita (Diego do Subúrbio)
A primeira manifestação com o formato de Parada do Orgulho LGBT+ no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, em 25 de junho de 1995, aconteceu no encerramento da 17ª Conferência daAssociação Internacional de Gays e Lésbicas, Bissexuais, Trans e Intersexo.
Neste primeiro ano no RJ, reuniu entre 2 mil e 3 mil pessoas na orla de Copacabana. Na ocasião, foi estendida uma grande bandeira do arco-íris (com 124 metros) e contou com a presença de trios elétricos.
No entanto, o marco histórico que deu início à tradição anual de grandes proporções aconteceu em São Paulo, no dia 28 de junho de 1997.
Organizada por entidades como o Grupo Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade, Amor (CORSA) e o Centro Acadêmico da USP.
O evento reuniu cerca de 2 mil pessoas na Avenida Paulista com o tema “Somos muitos, estamos em várias profissões”. A marcha exigiu a interrupção do trânsito — com drag queens deitando-se na via pública e utilizou um pequeno carro de som cedido pelo Sindicato das Costureiras. Desde então a Parada de São Paulo tornou-se uma das maiores do mundo e servindo de exemplo para outros Estados do Brasil.
A Parada do Orgulho de SP é organizada pela Associação da Parada do Orgulho LGBT…+ de São Paulo (APOLGBT-SP) desde 1999, ano em que foi fundada a instituição, que surgiu pela necessidade do evento ser realizado de uma maneira mais organizada, tendo em vista que a Parada cresceu ano após ano desde a primeira edição.
Em 2026, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Paulo completou 30 anos de muita luta, resistência e voz política nacional. Três décadas ocupando as ruas, reivindicando direitos, construindo visibilidade e transformando vidas. Mas também três décadas enfrentando preconceitos, disputas políticas, pagamentos e tentativas constantes de silenciamento. Ao celebrar essa trajetória, é impossível não refletir sobre o impacto que a Parada ainda exerce na sociedade brasileira e sobre os desafios que permanecem para mantê-la viva. Neste ano, a notícia de uma redução significativa no apoio de patrocinadores, próxima dos 60% em relação aos anos anteriores, nos lembra que o “jogo” está longe de estar vencido dentro de um pais tão polarizado e LGBTQIAPNfobico, fundamentalista e violento. O apoio à comunidade LGBTQIAPN+ continua sendo, muitas vezes, sazonal, condicionado a interesses de mercado e aos ventos da política nacional e internacional. Nada do que conquistamos até aqui foi dado. Cada direito, cada política pública, cada espaço de representação foi resultado de mobilização coletiva, organização política e muita resistência. Foi nas ruas que aprendemos a existir publicamente. Foi nas ruas que reivindicamos dignidade. Foi nas ruas que enfrentamos o estigma, discriminação, violência física e mortes brutais, inclusive durante os anos mais duros da epidemia de HIV/AIDS, quando grande parte da sociedade nos abandonou e a própria comunidade precisou construir redes de cuidado, solidariedade e luta pelo acesso universal ao tratamento. Como muitos acredita que foram médicos e industriais farmacêuticas que lideraram essa luta, não foram, mas sim a sociedade civil.
Não podemos deixar de mencionar que muitos nos anos 70, iniciaram essa luta de resistência e como um dos grandes aliados a iniciar a dar voz a comunidade LGBTQIAPN+, muitos dos termos inexistentes na época, foi o Jornal “Lampião de Esquina”, com sua primeira edição experimental, número zero, em abril de 1978, com uma circulação restrita que revolucionou e deu voz e visibilidade a tantos. Nomes como Agnaldo Silva, Darcy Penteado, João Antônio Mascarenhas, Jose Silvério Trevisan, Peter Fry e tantos outros abriram caminhos para chegarmos aonde estamos nos dias atuais.
A Parada mudou ao longo dos anos. Tornou-se maior, mais diversa, mais midiática e mais disputada. Mas sua essência continua a mesma, celebrar o arco-íris de experiências que compõem nossas vivências. Celebrar quem veio antes e abriu caminhos para que hoje possamos existir com um pouco mais de liberdade. Ainda assim, algumas perguntas permanecem. Teremos forças para resistir pelos próximos 30 anos? Ainda somos uma comunidade capaz de construir projetos coletivos ou nos tornamos indivíduos movidos apenas por interesses particulares? Quando falamos em diversidade, são todos os corpos que conseguem subir nesses “trios”? São todas as vozes que encontram espaço nos microfones? Pessoas trans, negras, periféricas, vivendo com HIV, vivendo em bolsões de extremaviolência, pessoas com deficiência, sem perspectivas de futuro, corpos gordos fora dos padrões impostos pelo sistema de corpos perfeitos, e envelhecidos ocupam esses espaços da mesma forma? Celebrar 30 anos também significa reconhecer nossas contradições. Significa entender que representatividade sem inclusão real não é o suficiente. Que diversidade sem justiça social é apenas discurso ralo e raso. E que orgulho sem memória corre o risco de se tornar apenas um espetáculo. Os próximos 30 anos da Parada dependerão da nossa capacidade de continuar construindo comunidades, fortalecendo alianças e compreendendo que nenhum direito é permanente todos necessitam de ajuste. Em um mundo onde discursos anti-LGBTQIAPN+ voltam a ganhar força em diferentes países, resistir continuará sendo uma tarefa coletiva. Talvez o maior legado desses primeiros 30 anos seja justamente este, lembrar que existimos porque outras pessoas resistiram antes de nós. E que as próximas gerações só poderão celebrar seus futuros se estivermos dispostos a continuar ocupando as ruas, defendendo direitos e sonhando coletivamente. Porque o orgulho nunca foi apenas uma festa e nunca será. O orgulho sempre foi, e continuará sendo, um ato de resistência como ocorreu no Stonewall Inn, um bar frequentado pela comunidade LGBT+, incluindo drag queens, pessoas trans, gays e lésbicas e curiosos no bairro de Greenwich Village, em Manhattan.
Época, quando a homossexualidade era considerada crime na maior parte dos EUA. A polícia realizou uma violenta e rotineira batida no bar sob a justificativa de fiscalizar a licença de bebidas.
Em vez de se dispersarem ou aceitarem as prisões humilhantes, os frequentadores e moradores locais decidiram enfrentar a força policial. O confronto espontâneo deu início a uma série de protestos e manifestações que duraram cerca de seis dias
Hoje querem fiscalizar nossos corpos e tolher nossa liberdade de sermos quem somos.
Retroceder, JAMAIS!.
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